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sábado, 16 de julho de 2016

Se as crianças cozinhassem + Chop Suey

Depois do Food Network, meu canal preferido na Sky é o Sundance Channel. Quer dizer que sou hipster-cult-diferentona? Ui, longe disso! É que às vezes é interessante assistir a filmes cujas narrativas diferem um pouco da velha fórmula róliudiana do 'felizes para sempre'. Há diretores e roteiristas maravilhosos fora do mainstream e penso que vale muito a pena conhecer o trabalho desses profissionais.

O diretor Tze Chun.
Para quem não sabe, o Sundance Channel foi fundado pelo ator Robert Redford e busca oferecer ao público uma seleção bastante diversificada de filmes independentes premiados, além de documentários e produções originais. Tem ligação direta com o Sundance Film Festival, o maior evento de cinema independente dos EUA, que dá visibilidade a novos trabalhos de cineastas do mundo inteiro. Muitos dos filmes do festival são vistos exclusivamente, e pela primeira vez, no Sundance Channel -- isso explica o motivo de muitos deles não serem tããão conhecidos do grande público. 

Um dos que o canal exibiu recentemente foi o ótimo "Children of Invention" (2009), filme de estreia do jovem diretor norte-americano Tze Chun. Apresentado em mais de 50 festivais de cinema, "Crianças Engenhosas" (título em pt-br) abocanhou nada menos que 17 prêmios. 


O filme conta a história de duas crianças que vivem com a mãe, a imigrante Elaine Cheng (interpretada pela atriz Cindy Cheung), no subúrbio de Boston. Lidando com as dificuldades de ser imigrante e não ter dinheiro, Elaine acaba se envolvendo em um esquema de pirâmide, atraída pela possibilidade de conseguir dinheiro rápido. Mas as coisas se complicam quando Elaine é presa pela Polícia e seus dois filhos, que vivem num apartamento-modelo, acabam entregues à própria sorte.

A história aborda com delicadeza a relação desses filhos com a mãe, que, desesperada para conseguir dinheiro e oferecer a eles uma vida mais confortável, acaba sacrificando o bem-estar das crianças. Fazer invenções -- como um talher 'automático' para comer macarrão, por exemplo -- é a saída que elas encontram para lidar com o tédio.

E o que tem a ver com a receita de hoje?

Bom, em uma parte do filme, as crianças precisam comer e acabam recorrendo ao popular cup noodles de microondas -- um miojo metido a besta, com altíssimos teores de sódio, carboidrato e gordura saturada. Deu um baita nervoso porque me lembrou minha época de faculdade; morando em outra cidade, sozinha, muitas vezes recorri ao miojo. Recorri tanto que atualmente só o cheiro me dá arrelia!

Fiquei pensando que toda criança deveria aprender a cozinhar. Obviamente que as receitas devem ser de preparação simples e segura, adequada à idade dos pequenos. Quer uma coisa simples, fácil, saudável e barata que uma criança de 11 ou 12 anos -- idade aproximada do garotinho do filme -- pode fazer tranquilamente?

Chop Suey Super Simples!


Não tem mistério, não. 
Chop Suey, prato de origem chinesa, nada mais é que "pedaços misturados" -- esta é a tradução literal. Consiste de carnes (frango, porco, bife ou camarão) cozidas rapidamente com legumes e envoltas em um molho engrossado com amido. Só isso.

Tradicionalmente, os legumes utilizados na preparação do Chop Suey são o repolho, o aipo e o feijão-da-china (conhecido no Brasil como feijão rajado). Por aqui, é comum vermos outros tipos de vegetais acrescentados ao prato, como couve-flor, brócolis, pimentões, acelga (aprecio um bocado!) e cenouras. Na verdade, tanto faz: havendo legumes, carne e molho, tá tudo certo! 

Para este prato, peguei o que eu tinha na geladeira: bife de alcatra, cenouras, vagens, cebolas e tomate.

1/2 kg de alcatra cortada em pedaços pequenos
2 dentes de alho picados
2 cm de gengibre fresco ralado
1/2 xícara de shoyu 
3 colheres (sopa) de água
1/2 pimenta dedo de moça picada bem fininha (opcional. Se for usar, tire as sementes)
2 cebolas médias cortadas em pétalas
2 cenouras grandes em rodelas
1 tomate grande picado
20 vagens picadas
1 colher (sopa) de amido de milho
Sal
Óleo 

Junte a carne com o alho, a pimenta, o gengibre e o shoyu. Reserve.
Numa wok (se não tiver, ok, use uma frigideira grande que tá tudo certo), coloque o óleo e frite a carne aos poucos. Na vasilha onde estiver o shoyu com o alho, o gengibre e a pimenta, junte o amido de milho e misture. Reserve.
Quando a carne estiver frita, tire da frigideira e coloque em um prato. Reserve.
Na frigideira, refogue os demais legumes até que fiquem al dente (o ideal é que sejam refogados separadamente, mas a ideia aqui é tornar a receita ainda mais simples e rápida). Corrija o sal. Reserve em um prato separado.
Na mesma frigideira, junte a mistura de shoyu e amido, a água, e mexa até engrossar um pouco. Corrija o sal.
Junte os legumes, a carne, e envolva no molho. 
Cubra com cebolinha picada e sirva com arroz branco.

Inté! :)







quinta-feira, 23 de junho de 2016

A Maçã e o melhor bolo dos últimos tempos na minha cozinha

Amo o cinema iraniano justamente porque os roteiros fogem daquela coisa ~róliudiana~ do "e foram felizes para sempre". Na verdade, as histórias são bem simples, contadas de forma poética e com finais realistas (às vezes, dolorosamente realistas). 

Um dos que mais gosto é "Sib" (em português, "A Maçã", de 1998), da diretora Samira Makhmalbaf.
O filme, uma mistura de ficção e documentário, conta a história de duas meninas, irmãs gêmeas (Massoumeh e Zahra), que passam onze de seus treze anos trancafiadas em casa. A mãe das meninas é cega e, por isso, o pai das duas, ao sair para trabalhar, as deixa trancadas. Elas não podem brincar no quintal, não têm contato com outras crianças e acabam criando um universo muito particular entre elas.

Os vizinhos, incomodados com a situação, fazem um abaixo-assinado para pedir providências às autoridades. O caso, então, passa a ser conhecido pelos jornais. Uma assistente social é designada para acompanhar a família e garantir que os pais obedeçam à determinação da Justiça: que as meninas tenham liberdade. No decorrer da história são mostradas situações muito delicadas, que envolvem preconceito, fanatismo, maldade, manipulação e ignorância. 

Choca um pouco saber que as meninas do filme, assim como seus pais, são reais -- eles não estão representando. Mas, por isso mesmo, emociona vê-las saindo de casa pela primeira vez, indo à rua, comendo as maçãs que compraram. Elas, que não falam direito, que andam de um jeito estranho, que não fazem ideia de como lidar com o dinheiro.
A premiada diretora Samira Makhmalbaf
filmou "A Maçã" quando tinha
apenas 17 anos de idade. 

Curiosa, fui atrás de informações para saber o que aconteceu com Massoumed e Zahra após o filme. No blog Chá de Lima da Pérsia encontrei um texto falando sobre o assunto: elas foram adotadas por outra família, foram para a escola e planejavam ir à universidade. As gêmeas devem ter cerca de 28 anos atualmente. Zahra continua morando com o pai e trabalha numa oficina de costura. Massoumeh casou-se. 

No YouTube há o filme completo, legendado. Se quiser assistir, clique aqui.

Agora, à receita! :)

Bolo Francês de Maçã

Receita de David Leibovitz

Não sou chegada a frutas, exceto se estiverem em alguma preparação culinária. Cruas, sem nada, nadica de nada...? Bem, até como, mas não posso dizer que amo. Maçãs, para mim, ficam boas cozidas: com carne de porco, com frango, no chucrute (neste caso, fermentadas), em tortas ou bolos.

O que me chamou a atenção na receita é que esta, ao contrário do que acontece em grande parte das receitas de bolo de maçã, não leva especiarias. Nada de canela, nada de gengibre, nada de cravo. No máximo, essência de baunilha. E rum, o que dá um 'plus' na coisa toda. Assim, o gosto que se tem é de maçã, pura e simplesmente.

A massa é super leve e perfumada. Tive que me controlar para não comê-la crua, pois a textura é mesmo muito gostosa! 



Os paus de canela estão aí só pra foto ficar mais enfeitadinha! :)

Vamos ao que interessa:

3/4 de xícara de farinha de trigo (110g)
3/4 col (chá) de fermento químico
1 pitada de sal
4 maçãs grandes cortadas em cubos de 3 cm
2 ovos grandes
3/4 de xícara de açúcar (150g)
1/2 col (chá) de essência de baunilha
3 col (sopa) de rum escuro ou essência
8 col (sopa) de manteiga derretida

Preaqueça o forno a 180°C.
Unte generosamente a forma com manteiga e reserve.
Descasque as maçãs, tire os miolos e corte em cubos de aproximadamente 3 centímetros (esprema por cima delas o suco de um limão, para que não escureçam). Reserve.

Num recipiente, peneire e misture a farinha, o fermento e o sal. Reserve.
Na batedeira, bata os ovos até espumarem e acrescente o açúcar aos poucos. Bata até formar um creme. Junte a metade da mistura de farinha e bata até incorporar. Faça o mesmo com metade da manteiga derretida. Repita a operação com o restante da farinha e da manteiga. 

Quando a massa estiver pronta, junte as maçãs e misture-as na massa com uma colher, delicadamente. Procure envolver todos os cubos na massa. Coloque a mistura na forma e tente espalhar as maçãs de maneira uniforme. Asse por cerca de 50 minutos ou faça o teste do palito -- se sair seco, é porque o bolo está pronto.

Fiquei pensando no que combinaria com este bolo. Chantilly? Sorvete? Concluí que ele, sozinho, se basta. Simples, perfumado, bonito e delicioso. Não precisa de mais nada! :)

Inté! 

terça-feira, 14 de junho de 2016

A Festa de Babette e um Coq Au Vin de última hora

Assisti ao filme "A Festa de Babette" pela primeira vez quando ainda era criança. Não pude, por me faltar a maturidade necessária para tal à época, compreender integralmente a mensagem daquela que, a meu ver, é uma das melhores obras cinematográficas do século XX. Numa madrugada dessas, revi pela terceira vez o filme -- uma belíssima produção dinamarquesa baseada num conto da escritora Karen Blixen, com direção de Gabriel Axel -- e concluí que cozinhar é a arte de fazer sorrir.

A Festa de Babette: um deleite para os olhos e para a alma.

A história se passa na Dinamarca, na segunda metade do século XIX. Numa noite de tempestade, em 1871, Babette chega a um vilarejo próximo ao mar. Ela, que fugia da França durante a repressão à Comuna de Paris, acaba sendo empregada como faxineira e cozinheira na casa de duas senhoras solteironas, Martine e Phillipa, filhas de um rigoroso ministro religioso. Ao longo de doze anos, Babette interfere na rotina do povoado ao acrescentar mais sabor à sopa distribuída pelas irmãs religiosas aos velhos da comunidade. Certo dia, porém, uma carta vinda da França lhe traz a informação de que havia ganhado uma fortuna na loteria. Em vez de se valer do dinheiro para voltar à sua terra natal, porém, Babette pede permissão às irmãs para preparar um jantar em comemoração ao centésimo aniversário do ministro -- um legítimo jantar francês. 

O que ocorre daí em diante é um espetáculo para os olhos e para a alma. Ver a transformação que um jantar feito com esmero pode causar no estado de espírito das pessoas é, no mínimo, inspirador. Me peguei sorrindo sozinha várias vezes durante o filme, pensando que um prato bem feito tem mesmo poderes mágicos, mesmo que os ingredientes utilizados não sejam considerados 'nobres'. Assim, todo cozinheiro e toda cozinheira tem um quê de alquimista, de feiticeiro...

As receitas executadas por Babette são coisa de outro mundo, ainda mais com a belíssima fotografia do filme. Impossível não salivar, viu? Quem quiser conferir -- e quem sabe tentar -- algumas receitas (em inglês), pode fazê-lo aqui.

Bom, não passo de uma pessoa que gosta de cozinhar e, às vezes, de se aventurar em receitas um pouco mais elaboradas que o nosso arroz-feijão de todo dia. Ainda com "A Festa de Babette" na cabeça, me veio à mente a lembrança de um tal Coq Au Vin, prato festejado entre os entusiastas da culinária francesa. Sempre pensei se tratar de algo muito sofisticado e fino, mas qual não foi a minha surpresa ao descobrir que Coq Au Vin é um prato quase rústico, de tão simples!

Meu primeiro Coq Au Vin :)

A internet disponibiliza um sem número de receitas e há algumas diferenças entre elas, sempre. Escolhi uma, que me pareceu bastante simples, e fiz algumas adaptações baseada em receitas um pouquinho mais elaboradas. O resultado? Bom, não sobrou muita coisa pra contar história! :)
Para acompanhar, servi batatinhas ao forno com azeite e ervas finas, e aproveitei pra colocar no meio delas alguns dentes de alho; depois de assados eles ficam simplesmente deliciosos!

Segue a receita:

Coq Au Vin

Ingredientes

1kg de sobrecoxa sem pele
1 cenoura grande
1 cebola média
3 ou 4 dentes de alho
1 alho poró fatiado (só a parte branca)
750ml de vinho tinto seco
100g de bacon 
200g de champingnons 
200ml de água
1 colher (sopa) de manteiga
2 colheres (sopa) de farinha de trigo
2 colheres (sopa) de azeite
Conhaque
Pimenta do reino
Cebolinha
Sal
Alecrim ou Tomilho
Louro

Modo de fazer:

Bote o frango para marinar por 12 horas na geladeira, numa tigela onde se tenham colocado o alho bem picado, a cebola (as fatias podem até ser um pouco mais grossas), o alho poró, o sal, o alecrim/tomilho, a pimenta, o louro (uma folhinha basta) e o vinho. 

Separe o frango, os vegetais e o vinho da marinada -- para isto, utilize uma peneira.

Em uma panela bem quente, adicione a manteiga, o azeite e o bacon cortado em cubinhos. Frite e reserve. 

Frite os pedaços de frango nesta gordura, aos poucos, até que dourem. Neste momento, junte uma dose de conhaque (usei um pouco mais porque aprecio o sabor) e flambe. Como a panela é alta, o correto é pôr parte da bebida na panela e outra parte numa colher de metal -- então você deve 'acender' cuidadosamente o conhaque que está na colher na chama do fogão, despejando o conteúdo dentro da panela. Reserve.

Adicione os vegetais da marinada e refogue um pouco. Polvilhe a farinha de trigo e misture bem. Deixe refogar por mais alguns minutos. 

Em seguida, adicione à panela o vinho utilizado na marinada e deixe esquentando. Quando começar a levantar fervura, junte o frango e adicione a água. Deixe cozinhar em fogo baixo, com a panela semi-tampada, por cerca de 50 minutos. 

Passado este tempo, junte o bacon frito, os champignons e deixe cozinhar por mais 15-20 minutos sem a tampa, até que o molho reduza e engrosse um pouco.  

Polvilhe a cebolinha cortada por cima e sirva acompanhado por batatas, purê de batatas ou salada verde.

Observações:

Sim, o frango fica ROXO quando sai da geladeira. A aparência pode assustar um pouco, mas não se preocupe, pois a carne permanece clarinha por dentro, mesmo depois de cozida.

Qualquer vinho tinto seco serve, mas é importante que seco -- não suave, não demi-sec.

Bom apetite! :)